Mal-Amanhados: “A nossa intenção era fazer uma declaração de amor à terra”. Entrevista a Luís Filipe Borges

“Mal-Amanhados — Os Novos Corsários das Ilhas”, com coordenação de Luís Filipe Borges e com a colaboração de Alexandre Borges e Nuno Costa Santos, foi agora editado em livro pela Letras Lavadas, e o seu lançamento será no dia 23 de dezembro às 21:00 h. A Agenda Açores decidiu entrevistar o coordenador deste projeto, Luís Filipe Borges, o nosso eterno ‘Boinas’, que nos desvenda as razões por trás da criação de Mal-Amanhados, as experiências mais marcantes e os conteúdos exclusivos que estarão no livro. Ficámos também a saber que futuro projeto ele se encontra a magicar!

“Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas”, agora convertido num livro com conteúdo exclusivo

1 – “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas” foi um programa televisivo composto por 10 episódios (um por cada ilha dos Açores e um especial com cenas exclusivas) que fez imenso sucesso, encantando todos os açorianos, por ter sido um programa educativo, mas divertido e feito de forma despretensiosa, quase como que um diário de viagem, dando voz a diversos protagonistas. Como surgiu a ideia de fazer este projeto e quais os propósitos que tu, o Nuno Costa Santos e o Alexandre Borges tinham com ele?

Começou por ser uma fantasia que nasceu nos corredores da Faculdade de Direito de Lisboa, entre mim e o Nuno, miúdos orgulhosos do solo materno e escandalizados com o desconhecimento continental em relação ao arquipélago. “Um dia havemos de fazer um programa sobre a nossa terra”, era um pensamento que acalentávamos. 21 anos depois da semente plantada, a utopia tornou-se real. Foi um processo que nasceu no dia do meu 40º aniversário, quando acordei saudavelmente obcecado com a ideia de que era agora ou nunca. E que, se não me chegasse à frente para trepar muros e estrear-me como produtor… ninguém o faria por mim. Dois anos e meio depois, concretizou-se. Um longo tempo necessário para pesquisar, escrever, reunir apoios, filmar, editar, corrigir, enfim. Por verdadeira coincidência cósmica, calhou que a série estreou em pleno confinamento pandémico. Numa altura em que estávamos todos impedidos de viajar e isolados, longe uns dos outros, havia uma aventura que podia ser feita e vivida por todos os que amam os Açores, e de forma muito simples – a partir de casa, unidos à distância a partir dos sofás de cada um. Penso que falo por todos os membros da equipa, Nuno, Alexandre, Diogo, Saras, Eddie, Góis, Brou, Cristóvam, todos os guerreiros deste curtinho mas belo dream team, quando digo que não poderíamos estar mais orgulhosos e verdadeiramente comovidos com os ecos que nos chegaram da série. A nossa intenção era fazer uma declaração de amor à terra, e a verdade é que os habitantes das ilhas pagaram-nos de volta em amor.

2 – Passaste por todas as ilhas, vivenciaste novas experiências, reencontraste velhos amigos e conheceste novas pessoas durante este programa. Qual ou quais os episódios mais fascinantes por que passaste e quais as pessoas que mais te impressionaram e com quem ficarias horas e horas a conversar?

mal-amanhados corvo

Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges a admirar o Caldeirão (Corvo)

Infindáveis. Por exemplo, nós começámos a rodagem pelo Grupo Ocidental. Nas Flores fomos imediatamente apresentados à senhora Gabriela Silva que se tornou, em questão de minutos, numa verdadeira “madrinha” de toda a nossa equipa (e amiga para toda a vida). Viveu connosco naqueles dias e ficou no nosso coração para sempre, abriu (literalmente) portas em todo o lado, apresentou-nos a almas fascinantes, motivou, inspirou, comoveu.

Os episódios também são incontáveis mas, ficando por esse nosso território mais ocidental, recordo a manhã em que acordamos para tomar o pequeno-almoço na Guest House Commodoro, Corvo, com avião para apanhar de regresso às Flores dali a duas horas e meia, e o Sr. Manuel Ritta anuncia: o tempo está péssimo! Esqueçam avião, esqueçam barco, não há nada!

E eu, como produtor, começo a suar frio e a pensar em tudo o que faltava filmar nas Flores, compromissos firmados, conversas marcadas, etc. Solução? Ligar ao Carlos Toste, skipper extraordinário, que de imediato arrancou para nos vir buscar. Demorou quase duas horas a fazer aquela travessia, tal era o estado do mar. E depois, bem, irmos todos juntos debaixo de chuva e a serpentear ondas, agarrados ao material técnico coberto em sacos de plástico e lonas, foi das experiências mais carregadas de adrenalina de sempre. Como se diz na Terceira, “tal disparate!” (risos) Chegados ao cais florentino, o final perfeito: já o Sílvio Gonçalves – da Aldeia da Cuada – nos esperava com uma carrinha… e minis para todos. Nada bate a hospitalidade e espírito de entreajuda açorianos.

 3 – “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas” será agora convertido num livro, a convite da editora açoriana Letras Lavadas. Como encararam este novo desafio?

Com surpresa verdadeiramente encantada, orgulho desmedido, e muita vontade de fazer diferente, novo, inusitado – até porque era obviamente impossível replicar em papel a experiência audiovisual. O convite da Letras Lavadas e o trabalho extraordinário que fizeram, quer na estética deste volume quer na transcrição das conversas com os nossos protagonistas, fez-me re-apaixonar pelo meio editorial. Pessoalmente, já não publicava há 4 anos e sentia-me bastante desencantado com este tipo de mercado. Mas a amabilidade, a atenção, a forma como a Letras Lavadas encara o ofício, simplesmente enternecem e motivam. Ainda por cima um projecto 100% açoriano ser apoiado por uma editora 100% açoriana com capacidade de divulgação nacional é nada mais nada menos do que a cereja no topo do bolo. Já para não dizer que tudo fizeram para incluir um encarte visual maravilhoso (da autoria do nosso jovem realizador e editor, Diogo Rola) e que a LL assume gratuitamente o envio do livro para qualquer ilha açoriana ou território continental.

4 – Este livro não comporta apenas os testemunhos dos protagonistas do programa. Contará com o acervo fotográfico fantástico de Diogo Rola e o prefácio de Onésimo Teotónio Almeida. Que outras surpresas poderemos folhear nas cerca de 400 páginas deste livro que é tudo menos mal-amanhado?

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Equipa do “Mal-Amanhados” no Poço da Ribeira do Ferreiro (Flores). Fotografia de Diogo Rola incluída no livro.

Esforcei-me ao máximo para incluir e garantir o máximo de material inédito neste volume. Há crónicas de rodagem, contributos dos 3 argumentistas da série, alguns insights peculiares sobre os bastidores, confissões, segredos, e curiosidades que penso que vão agradar muito a quem seguiu a série mas – sem dúvida – aquilo de que mais me orgulho é do facto deste livro ter na verdade cerca de 300 autores… Sim, 300. Porque me dediquei de alma e coração a seleccionar algumas das imensas mensagens de feedback que a aventura recebeu de todos os cantos do mundo via redes sociais. Uma avalanche de carinho como nunca senti antes em projecto algum. Em muitas dessas mensagens/comentários/mails há novas histórias, capítulos, personagens, memórias e emoções que mais do que merecem entrar para a galeria de sentimentos despertados pela nossa viagem. E ainda há pormenores interessantes como um capítulo que consiste no guião original do episódio 5 (Flores) – para o espectador/leitor perceber a raiz de onde partimos e tudo o que mudou (e frutificou a partir daí) com a improvisação e a abertura ao encantamento que aconteceu in loco, em cada ilha, com tantos protagonistas que nem pensados estavam inicialmente.

Acho essencial referir a alegria que foi apresentar esta viagem sob o carimbo da “nossa” RTP-Açores. Só podia ser assim, com todo este ADN ilhéu – e a empatia e dedicação com que o projecto foi recebido e tratado por Rui Goulart e toda a sua equipa foram notáveis. Tornou-se sistematicamente um dos conteúdos mais vistos das plataformas online de todo o universo RTP, algo que cala fundo e fica para sempre.

 5 – A pergunta que ninguém quer calar. Haverá segunda temporada de “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas”? Sei que te mostras aberto a essa possibilidade. Caso esta proposta seja levada avante, seria feita em que moldes?

Posso garantir que a nova utopia é, sim senhor, uma qualquer espécie de sequela. E que já estou a trabalhar na pré-produção dessa empreitada, apesar da pandemia, apesar das dificuldades burocráticas, apesar do desafio que é preparar algo desta envergadura a partir duma região ultra-periférica e mais ainda nos tão incertos tempos covidianos. Mas lá está, o açoriano encontra sempre maneira! (risos) E aqui não posso deixar de enaltecer as duas dezenas de instituições e marcas açorianas – e também continentais – sem as quais, pura e simplesmente, a primeira aventura não teria sido possível. Os devidos créditos estão na série e também nesta versão em livro, e são mais do que justos.

A minha fantasia actual como produtor, ainda mais ambiciosa e de logística bem mais complicada, é ir atrás dos açorianos no mundo – com episódios em territórios diferentes da Diáspora. Vai acontecer. Há-de ser realidade custe o que custar. Nem que demore mais dois anos e meio. No entretanto, nasce este livro; haverá edição em DVD da primeira série; uma versão cinematográfica com a viagem inteira pelas 9 ilhas concentrada num máximo de 120 minutos (incluindo cenas inéditas), e seguramente outras surpresas num futuro de curto/médio prazo.

 

Poderás adquirir o livro “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas” no site da Letras Lavadas, aqui!

 

Podes ver a série “Mal-Amanhados – Os Novos Corsários das Ilhas” na RTP Play, aqui!

 

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