Entrevista a Tania Mendes no Diário Insular

Entrevista a Tania Mendes no Diário Insular

Entrevista a Tania Mendes no Diário Insular de 24 de outubro de 2018 acerca do livro A Infância Abandonada que inspirou as reportagens que têm passado, por estes dias, nas televisões nacionais, a propósito das adoções de crianças terceirenses por militares norte-americanos.

Diário Insular – Iniciou este estudo porque é mãe adoptiva…

Tânia Mendes – É verdade. Vivenciei aquelas representações sociais do coitadinho do menino, que foi abandonado pelos progenitores e coitadinhos daqueles pais que, se calhar, não puderam ter filhos… Este coitadinho fazia-me muita confusão, porque eu dizia muitas vezes que ele foi abençoado, mas nós também fomos, se calhar a dobrar. Isso fez-me tentar perceber o que é que aconteceu no nosso contexto, o que é que inculcou essas representações. Na Terceira é impensável, claro, fazer um estudo sem irmos ter à presença militar norte-americana. Foi isso que aconteceu, ao chegar ao período do Estado Novo. Este fenómeno da adopção por casais norte-americanos vai fazer toda a diferença na forma como muita gente interpreta a adopção.

D.I. – O que se passou da década de 40 até 1974, período que estudou?

T.M. – Assistimos a um facilitismo nesta gestão dos agregados familiares. Facilmente se dava uma criança e onde estavam as leis, algum processo burocrático? O mais interessante neste estudo é que, quando confrontamos os registos de passaportes, que comprovam essas saídas na companhia de casais norte-americanos, com os assentos de nascimento, cerca de metade dessas crianças não tem qualquer tipo de adopção. Continuam a estar registadas nos assentos de nascimento como filhos dos pais biológicos. Até à década de 70, o único documento que era pedido para se ter um passaporte para se emigrar para a América era um termo de consentimento de como os pais entregavam a criança e os americanos responsabilizavam-se por ela. Iam e não voltavam. A partir dos anos 70 já começa a aparecer no processo de passaporte um termo de consentimento para adopção. As primeiras leis da adopção saem em 1966. Curiosamente, contudo, o tipo de adopção não lhes permitia sair. Há dois tipos de adopção, a restrita e a plena. Na restrita tem de ser mantido contacto com os pais biológicos. Era seguida a adopção restrita, provavelmente por haver dificuldade em interpretar a lei. Era a forma mais simples.

D.I. – O que levava os norte-americanos a adoptar?

T.M. – Haviam, claro, os grandes motivos que hoje levam à adopção. A impossibilidade de uma parentalidade biológica… Depois, conhecia-se uma empregada que sabia de determinada família… Deparavam-se com um contexto e tomavam essa decisão.

D.I. – Sobretudo de que sítios da ilha saíram crianças?

T.M. – De acordo com os registos de passaportes, o grande fluxo foi da Fonte do Bastardo, o que é surpreendente, porque não é das freguesias mais próximas da Base das Lajes. Depois, das Lajes, principalmente da Serra de Santiago, da Agualva… Também saíram de outras ilhas. É referida muitas vezes, nas entrevistas que realizei, a presença de um intermediário. Não acredito que famílias tão pobres, sem ninguém que trabalhasse na Base, soubessem logo que aquele norte-americano precisava de uma criança. Como sabia aquele norte-americano que, naquela casa, havia uma criança para dar? Tinha de haver um intermediário que conhecesse bem o contexto da freguesia. Há menções a pessoas que eram de certa forma uma referência na freguesia, como, também, aos próprios trabalhadores da Base, principalmente as empregadas domésticas.

D.I. – O que a surpreendeu mais na investigação que desenvolveu?

T.M. – O número. Não aquele que consegui (97 adopções), mas aquele que penso que pode ser… É um número muito, muito grande. E não foi só a nível da Terceira, mas de arquipélago. Ainda hoje os laços familiares inter-ilhas são muito comuns. Há registos de casos desses. Também, no bairro da Serra de Santiago havia muita gente de outras ilhas. As crianças podiam ser naturais de outra ilha mas serem dadas cá.

D.I. – Na sua maioria, terão sido crianças que partiram para uma vida melhor. O que a assombra ainda neste assunto?

T.M. – Revejo-me na perspectiva dos norte-americanos, de receber a bênção de um filho. O que assombra é a necessidade destas crianças que foram dadas para adopção, agora adultos, sentirem a necessidade de fecharem esse capítulo. Começamos agora a ouvir falar de pessoas que viajam para cá, que procuram.
Se calhar, depois de fecharem esse capítulo, tudo fica encerrado. Sinto responsabilidade de dar voz a todas estas pessoas, as que ficaram cá e as de lá… Entrevistei uma senhora que me agradeceu por me lembrar deles. Dizia “isto aconteceu-nos”. Quando lancei o livro, convidei-a. Entretanto, a irmã que estava na América encontrou-a. Veio já à ilha.

D.I. – Como é que as pessoas que foram dadas para adopção, ou que viram irmãos serem dados, encaram isso?

T.M. – Há uma dicotomia de sentimentos. Digo sempre que é preciso não fazer julgamentos e tentar recuar à época. É preciso perceber todo aquele contexto social. O grande motivo que impulsionou as adopções foi a pobreza, mas há também os casos de manutenção da honra familiar. Filhos ilegítimos, maridos para a guerra… Era preciso fazer “desaparecer” aquele filho. Há a questão social, ser julgada por toda a freguesia. Há 50 anos atrás, era uma sentença.

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