Viagens

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Eis uma bela recolha de depoimentos sobre o tema da viagem, da autoria de escritores de algum modo ligados aos Açores, ou por lá terem nascido e vivido, ou por lá terem ficado a residir sem lá terem nascido ou por qualquer outro vínculo, no fundo, sempre afectivo.

A vida insular é um permanente convite à viagem, de uma forma particularmente intensa: cercados de fronteira por todos os lados, apetece mesmo atravessá-la. Mas, mesmo sem ser insular, o homem, desde os tempos mais remotos, sentiu necessidade de se deslocar pelos mais diferentes motivos. Hoje, num universo de meios de transporte cada vez mais rápidos e mais acessíveis, um número muito grande de habitantes do planeta sente o atractivo das viagens, para conhecer tudo o que é mundo. Viaja-se por necessidade de trabalho, por simples curiosidade, por razões de saúde, por puro prazer ou porque o vizinho de rua já viajou. Ou para se mudar de vida ou de clima ou para se ter uma reforma em sítio mais tranquilo ou aprazível.

Não poucos dos que viajam sentem o desejo de dar testemunho daquilo que apreciaram, sentiram, aprenderam. O desejo de partilha é algo de muito humano.

Há quem viaje para ver diferente do que tem, mas há também quem viaje apenas em busca de encontrar o que já tinha no seu próprio país. A este respeito, o sempre acerado e cáustico Somerset Maugham pôs na boca de um personagem da sua comédia, The Constant Wife, estas judiciosas palavras: “Os únicos lugares de que John gosta, no continente, são aqueles em que, só por um grande esforço de imaginação, se pode dizer que se não está na Inglaterra.” Há realmente quem vá à Grécia, não para experimentar a comida grega, mas sim para ali reencontrar a cozinha do seu próprio país. Há viajantes de curiosidade intensa e sempre desperta, mas há também os terrivelmente enfastiados, a quem nada encanta. O conhecido maestro Sir Thomas Beecham, conhecido pela sua desbocada iconoclastia, declarou um dia: “Dei recentemente uma volta ao mundo e fiquei com uma fraca impressão do que vi.” Este testemunho tem, em todo o caso, a eminente virtude da franqueza. Virtude que não faltou a Oscar Wilde, quando, no final da viagem que fez, da Inglaterra para os Estados Unidos, declarou grandiosamente para quem o quis ouvir: “O Atlântico desapontou-me!” É o que se colhe de mais saboroso nos relatos de viagem, de autores que, em vez de embasbacarem perante os marcos milenares do engenho humano ou para as maravilhas que a natureza lentamente congeminou, confessam destemidamente o seu ocasional desinteresse ou fastio. Vamberto de Freitas é, a este respeito, um belo exemplo daquele “franc parler” que Stendhal tanto estimava. Em mais de uma passagem do seu testemunho, admite, sem rebuços, que isto ou aquilo pouco ou nada lhe disse. Falando, por exemplo, de Las Vegas, diz abertamente que “ainda hoje detesto pelas suas luzes exageradas e os seus casinos mafiosos.” E não posso senão aplaudir… Por outro lado, uma visita a Oxford, Mississipi, terra de William Faulkner, seduziu-o: “Foi maravilhoso.”  Porém, Nova Iorque, com toda a sua grandeza arquitectural, não lhe deixou “vontade de regressar”. Esta rara franqueza de viajante agrada-me particularmente, porque também eu não cesso de dizer a quem me queira ouvir, que acho Atenas, Acrópole aparte, uma verdadeira pocilga.

Há, como já sugeri, viajantes de todas as cores e formatos, como aquele de quem alguém falava, o qual era capaz de ir a Zanzibar apenas para saber o número de gatos que lá havia, E há, como observava Alphonse Karr, quem viaje, menos por curiosidade pelo que vai visitar do que por tédio pelo que deixa para trás. Não é, de nenhum modo, destes últimos viajantes que trata a saborosa colectânea que constitui este livro. Trata-se de dezasseis interessantes testemunhos de viajantes, que nos legam registos muito diferentes uns dos outros, mas todos apelativos. Alguns viajantes compulsivos, como Onésimo Almeida, encontram-se, neste momento de pandemia mortífera, impedidos de darem curso aos seus poderosos instintos viajeiros. É mau para eles e será mau para nós, no futuro, porque o não viajar deles representará, para nós, provavelmente, uma perda de relatos capitosos.

Seja como for, para os leitores que gostam de viagens e as não podem actualmente realizar, fica a possibilidade de, sem grande desvantagem, substituírem as suas não-viagens pelo recheado relato destas que aqui se publicam.

Prefácio: Eugénio Lisboa

Autores: Álamo Oliveira; Ângela de Almeida; Diniz Borges; Eduardo Bettencourt Pinto; Eduíno de Jesus; Henrique Levy; José Francisco Costa; Lélia Pereira Nunes; Leonor Sampaio da Silva; Leonor Simas-Almeida; Nuno Costa Santos; Onésimo Teotónio Almeida; Paula Sousa Lima; Scott Edward Anderson; Urbano Bettencourt; Vamberto Freitas.

 

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Descrição

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Eis uma bela recolha de depoimentos sobre o tema da viagem, da autoria de escritores de algum modo ligados aos Açores, ou por lá terem nascido e vivido, ou por lá terem ficado a residir sem lá terem nascido ou por qualquer outro vínculo, no fundo, sempre afectivo.

A vida insular é um permanente convite à viagem, de uma forma particularmente intensa: cercados de fronteira por todos os lados, apetece mesmo atravessá-la. Mas, mesmo sem ser insular, o homem, desde os tempos mais remotos, sentiu necessidade de se deslocar pelos mais diferentes motivos. Hoje, num universo de meios de transporte cada vez mais rápidos e mais acessíveis, um número muito grande de habitantes do planeta sente o atractivo das viagens, para conhecer tudo o que é mundo. Viaja-se por necessidade de trabalho, por simples curiosidade, por razões de saúde, por puro prazer ou porque o vizinho de rua já viajou. Ou para se mudar de vida ou de clima ou para se ter uma reforma em sítio mais tranquilo ou aprazível.

Não poucos dos que viajam sentem o desejo de dar testemunho daquilo que apreciaram, sentiram, aprenderam. O desejo de partilha é algo de muito humano.

Há quem viaje para ver diferente do que tem, mas há também quem viaje apenas em busca de encontrar o que já tinha no seu próprio país. A este respeito, o sempre acerado e cáustico Somerset Maugham pôs na boca de um personagem da sua comédia, The Constant Wife, estas judiciosas palavras: “Os únicos lugares de que John gosta, no continente, são aqueles em que, só por um grande esforço de imaginação, se pode dizer que se não está na Inglaterra.” Há realmente quem vá à Grécia, não para experimentar a comida grega, mas sim para ali reencontrar a cozinha do seu próprio país. Há viajantes de curiosidade intensa e sempre desperta, mas há também os terrivelmente enfastiados, a quem nada encanta. O conhecido maestro Sir Thomas Beecham, conhecido pela sua desbocada iconoclastia, declarou um dia: “Dei recentemente uma volta ao mundo e fiquei com uma fraca impressão do que vi.” Este testemunho tem, em todo o caso, a eminente virtude da franqueza. Virtude que não faltou a Oscar Wilde, quando, no final da viagem que fez, da Inglaterra para os Estados Unidos, declarou grandiosamente para quem o quis ouvir: “O Atlântico desapontou-me!” É o que se colhe de mais saboroso nos relatos de viagem, de autores que, em vez de embasbacarem perante os marcos milenares do engenho humano ou para as maravilhas que a natureza lentamente congeminou, confessam destemidamente o seu ocasional desinteresse ou fastio. Vamberto de Freitas é, a este respeito, um belo exemplo daquele “franc parler” que Stendhal tanto estimava. Em mais de uma passagem do seu testemunho, admite, sem rebuços, que isto ou aquilo pouco ou nada lhe disse. Falando, por exemplo, de Las Vegas, diz abertamente que “ainda hoje detesto pelas suas luzes exageradas e os seus casinos mafiosos.” E não posso senão aplaudir… Por outro lado, uma visita a Oxford, Mississipi, terra de William Faulkner, seduziu-o: “Foi maravilhoso.”  Porém, Nova Iorque, com toda a sua grandeza arquitectural, não lhe deixou “vontade de regressar”. Esta rara franqueza de viajante agrada-me particularmente, porque também eu não cesso de dizer a quem me queira ouvir, que acho Atenas, Acrópole aparte, uma verdadeira pocilga.

Há, como já sugeri, viajantes de todas as cores e formatos, como aquele de quem alguém falava, o qual era capaz de ir a Zanzibar apenas para saber o número de gatos que lá havia, E há, como observava Alphonse Karr, quem viaje, menos por curiosidade pelo que vai visitar do que por tédio pelo que deixa para trás. Não é, de nenhum modo, destes últimos viajantes que trata a saborosa colectânea que constitui este livro. Trata-se de dezasseis interessantes testemunhos de viajantes, que nos legam registos muito diferentes uns dos outros, mas todos apelativos. Alguns viajantes compulsivos, como Onésimo Almeida, encontram-se, neste momento de pandemia mortífera, impedidos de darem curso aos seus poderosos instintos viajeiros. É mau para eles e será mau para nós, no futuro, porque o não viajar deles representará, para nós, provavelmente, uma perda de relatos capitosos.

Seja como for, para os leitores que gostam de viagens e as não podem actualmente realizar, fica a possibilidade de, sem grande desvantagem, substituírem as suas não-viagens pelo recheado relato destas que aqui se publicam.

Prefácio: Eugénio Lisboa

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Informação adicional

Peso 0.836 kg
Dimensões (C x L x A) 23.5 × 14 × 2 cm
ISBN

978-989-735-272-0

Edição

01 – JUL – 2020

Idioma

Português

Encadernação

Capa mole

Editora

Letras Lavadas